Conversas na lata e a mágica do barbante

Foto: Gabriela Romeu

A brincadeira, genuína forma de expressão das crianças, foi a principal linguagem usada no curta-metragem “Disque Quilombola”. No documentário, a história é contada durante conversas entre crianças de duas comunidades distantes no telefone de lata.

Como foi que nasceu a ideia do telefone de lata?

A ideia das conversas na lata surgiu porque queríamos deixar as crianças falarem de si da forma mais espontânea possível. Assim, em uma brincadeira, onde não há o certo e o errado, e o que fosse dito estaria valendo para compor uma conversa, conseguiríamos apresentar quem de fato são essas crianças. Explicamos anteriormente que estariam conversando com crianças que elas nunca tinham visto e apresentamos aspectos básicos de ambas as realidades. A partir daí elas compuseram suas perguntas e assuntos que gostariam saber dessas outras crianças. Os mesmos assuntos levantados para as perguntas foram tema para elas nos mostrarem sobre si, ou seja, como surgiu perguntas de comidas, brincadeiras e músicas, elas nos apresentaram essas coisas delas.

Como foi fazer a composição das falas na construção do filme?

Depois de filmar as perguntas e as atividades de um dos locais, a equipe de filmagem se deslocou para o outro local. Ali apresentaram para esse novo grupo de crianças o que as primeiras haviam perguntado. Na brincadeira do telefone de lata elas tentavam responder as questões que lhe chegaram, ao mesmo tempo que também faziam as suas perguntas. Assuntos diversos surgiam nessas conversas, que não tinham relação direta com perguntas e respostas, mas que tornavam a brincadeira de fato uma brincadeira. Esse vai e vem de perguntas e respostas aconteceram duas vezes em cada local. Na hora da edição transcrevemos todas essas falas e aí foi nossa vez de brincar. Brincamos com o que foi dito e o que foi respondido, mesmo que uma pergunta nada tinha a ver com a resposta dada. Fizemos uma colagem das perguntas e respostas tentando achar uma forma divertida e espontânea de haver uma verdadeira conversa entre eles.

Como foi fazer o roteiro desse filme?

Construímos um roteiro baseado nas pesquisas que fizemos sobre esses locais, porém, tínhamos muito claro conosco, baseado nas inúmeras experiências anteriores de fazer documentário sobre crianças, que é preciso ter uma abertura para escutar o que as crianças querem dizer, e isso vai muito além do planejado. Estar aberto para redirecionar o roteiro, foi desde o início uma perspectiva desse filme. A ideia do telefone de lata seria, inclusive, um pequeno trecho do filme. Porém, ela ganhou tamanha força entre as crianças que ao final das gravações, quando vimos as imagens, percebemos que tínhamos nas mãos o filme dado pelas próprias crianças.